Leucótea amamentando Dioniso[1].
As Matralia (Matrales) eram festividades que se celebravam no dia 11 de Junho, em honra da deusa Mater Matuta. Deusa que, inicialmente, personificava a aurora, a luz matutina, o nascer do dia, e que passou a ser uma deusa protectora dos partos e dos nascimentos, atributo que estava na mitologia helénica a cargo da Deusa Ilitia. Em grego, Εἰλείθυια (Eileíthuia), em latim Ilithya, e cujo tema ἐλευθ- (eleuth-), de ἐλεύσομαι (eleúsomai) significa ‘aquele que vem’ ou ‘aquele que faz vir’, daí a sua relação com os nascimentos e os partos, os que estão para vir.
Mais tarde, passou a ter o atributo de protectora dos navegantes, e considera-se mãe de Portuno, deus marinho protector dos portos. Identificada com Leucótea, na mitologia grega e que salva Ulisses quando estava perdido no mar: “Foi então que o viu a filha de Cadmo, Ino de belos tornozelos – / chama-se agora Leucótea quem antes fora de fala humana: / no mar salgado granjeara da parte dos deuses uma honra divina. / Apiedou-se, comovida, de Ulisses, que tanto sofria.”[2]
Tinha, também, o atributo de amadurecer as espigas e, portanto, era também conhecida como deusa da agricultura.
Sérvio Túlio mandou que lhe fosse erigido um templo no Forum Boarium, próximo do porto de Roma e segundo a lenda quando chegara a Roma, fora transformada em deusa marinha. Ora quando chegou, as Bacantes estavam a celebrar ritos a Baco e Juno, dando conta da sua presença, instigou-as e tentaram maltratá-la, não fosse Hércules, que ouvindo os gritos dela, foi em seu auxílio.
E precisamente, no dia 11 de Junho, as matronas, mas apenas as que se haviam casado uma vez, se dirigiam a este templo e lhe ofertavam uns bolos assados sobre um pedaço de barro (testuatium). Do ritual consistia ainda a entrada, no templo, a mando das matronas de uma escrava, que era expulsa a vergastadas por elas, pois o culto à deusa estava-lhes negado. Faziam, de seguida rogos à deusa pelos seus filhos ou sobrinhos, que levavam ao colo e acariciavam.
ite, bonae matres (vestrum Matralia festum), / flavaque Thebanae reddite liba deae. / pontibus et magno iuncta est celeberrima Circo / area, quae posito de bove nomen habet. / hac ibi luce ferunt Matutae sacra parenti / sceptriferas Servi templa dedisse manus. / quae dea sit, quare famulas a limine templi / arceat (arcet enim) libaque tosta petat, (…)
arserat obsequio Semele Iovis: accipit Ino / te, puer, et summa sedula nutrit ope. / intumuit Iuno, raptum quod paelice natum / educet: at sanguis ille sororis erat. (…)
numen eris pelagi: natum quoque pontus habebit. / in vestris aliud sumite nomen aquis: / Leucothea Grais, Matuta vocabere nostris; / in portus nato ius erit omne tuo, / quem nos Portunum, sua lingua Palaemona dicet. (…)
Cur vetet ancillas accedere quaeritis? odit, / principiumque odii, si sinat illa, canam. / una ministrarum solita est, Cadmei, tuarum / saepe sub amplexus coniugis ire tui. / improbus hanc Athamas furtim dilexit; ab illa / comperit agricolis semina tosta dari: / ipsa quidem fecisse negas, sed fama recepit: / hoc est cur odio sit tibi serva manus.[3]
“Boas mães, ide às vossas festas, às Matrálias, / dai à deusa tebana os flavos libos[4] / Junto às pontes e ao Circo está a área celebérrima / cujo nome provém de um boi lá posto. / Dizem que nesse dia, ali, à mãe Matuta / as régias mãos de Sérvio um templo ergueram. / Qual deusa é? Por que do umbral do templo afasta / as servas, e tostados libos pede? (…)
Por obsequio de Jove ardeu Sêmele. Ino / acolheu-te, ó menino, e alimentou-te[5]. / Juno irritou-se, porque ao filho da rival / ela cria – porém da irmã é o sangue. (…)
«Serás nume do mar: e o ponto terá um filho / – impõe a tuas águas novo nome. / Leucótea os gregos chamarão, e nós, Matuta: / dos portos todo jus cabe a teu filho, que, p’ra nós é Portuno e, em sua língua, Palemo.» (…)
Perguntais porque escrava entrar não pode: o ódio; / e se Ino permitir direi a causa. / Ficha de Cadmo, u’a escrava tua costumava / de teu marido abraços receber. / A furto, Atamas[6] deliciou-a, e dela soube / que aos lavradores grãos torrados deste. / Negas o feito, mas a fama recebeste; / é por isso que a escrava mão odeias.”[7]
Bibliografia Geral:
Grimal, Pierre, Dicionário de Mitologia Grega e Romana (tradução de Victor Jabouile), Difel, Lisboa.
Valverde, José Contreras et alii, Diccionario de la Religión Romana, Ed. Clásicas, Madrid, 1992.
[1] Museu Nacional Romano, século , fresco da “Casa della Farnesina”.
[2] Homero, Odisseia, tradução de Frederico Lourenço, Livros Cotovia, Lisboa, 4.ª edição: Abril de 2004, Canto V, vv.333-336, p. 100
[3] Publius Ovidius Naso, Fasti, Liber VI, vv. 475-480; 485-488; 543-547; 551-558.
[4] Flava liba – referência aos bolinhos flavos, isto é, dourados, depois de cozidos.
[5] Referência a Ino, que, após Sémele, sua irmã, ter sido carbonizada pelos raios de Zeus, recolheu o pequeno Dioniso e educou, juntamente com os seus filhos.
[6] Atamas fora casado com Leucótea em segundas núpcias.
[7] Ovídio – Os Fastos – tradução de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior, Autêntica CLÁSSICA.








