CARNARIA

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Sarcófago representando brincadeiras infantis.[1]

Festas em honra de Carna – 1 de Junho

As Carnaria (Carnares) eram festividades em honra de Carna, deusa protetora dos órgãos vitais do homem e da assimilação dos alimentos. Enquanto deusa da infância preocupava-se pelo desenvolvimento e amadurecimento dos músculos das crianças. Já como deusa agrária, ocupava-se com o amadurecimento dos frutos e da engorda dos animais.

O ritual consistia na oferta de um puré de favas e toucinho, alimentos que, segundo Macróbio, contribuíam para dar força ao corpo, mais do que quaisquer outros e segundo Ovídio, quem os consumisse nesse dia, ficaria livre de dores nas entranhas.

Ovídío ainda nos relata que, inicialmente, começou por ser uma ninfa chamada Crane e que Jano, tendo-lhe tirado a virgindade, lhe atribui a protecção das ombreiras e dobradiças das portas e janelas. Carna tinha, portanto, também a função de afastar as Harpias ou Estriges, animal híbrido, meio ave, meio humano e que devorava as entranhas dos recém-nascidos.

Ovídio relata nos Fastos a salvação de Proca, futuro rei de Alba, que fora atacado por uma Harpia e acaba, assim, por interligar Carna, cuja função era proteger os órgãos vitais do ser humano e Cárdea, divindade Romana que tinha a função de proteger as portas e as dobradiças.

Por esta razão e por equívoco, Ovídio identifica Carna com a deusa Cárdea e acaba por também associar as funções protetoras das duas divindades.

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Prima dies tibi, Carna, datur. dea cardinis haec est: / numine clausa aperit, claudit aperta suo. / unde datas habeat vires, obscurior aevo / fama; sed e nostro carmine certus eris. (…)

nde sata est nymphe (Cranaen dixere priores) / nequiquam multis saepe petita procis. (…)

viderat hanc Ianus, visaeque cupidine captus / ad duram verbis mollibus usus erat. (…)

nil agis, et latebras respicit ille tuas. / nil agis, en! dixi: nam te sub rupe latentem / occupat amplexu, speque potitus ait / ‘ius pro concubitu nostro tibi cardinis esto: / hoc pretium positae virginitatis habe.’ / sic fatus spinam, qua tristes pellere posset / a foribus noxas (haec erat alba) dedit. (…)

sunt avidae volucres (…)

nocte volant puerosque petunt nutricis egentes, / et vitiant cunis corpora rapta suis; (…)

est illis strigibus nomen (…)

in thalamos venere Procae: Proca natus in illis / praeda recens avium quinque diebus erat, / pectoraque exsorbent avidis infantia linguis; (…)

at puer infelix vagit opemque petit. / territa voce sui nutrix accurrit alumni, / et rigido sectas invenit ungue genas. (…)

pervenit ad Cranaen, et rem docet. illa ‘timorem / pone: tuus sospes’ dixit ‘alumnus erit.’ (…)

 Pinguia cur illis gustentur larda Kalendis / mixtaque cum calido sit faba farre rogas? / prisca dea est, aliturque cibis quibus ante solebat, (…)

quae duo mixta simul sextis quicumque Kalendis / ederit, huic laedi viscera posse negant.[2]

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“Deusa dos gonzos, Carna, é teu o primeiro dia, / e tudo, por teu nume, abre-se e fecha. / De onde vem tal poder, o tempo enubla a história / porém, pelo meu canto aprenderás. (…)

Ali nasceu u’a ninfa antes chamada Crane, / pedida, em vão, por muitos pretendentes. (…)

Um dia, Jano a viu e, tomado de ardor, / à inflexível falou com brandos ditos. (…)

«Nada podes fazer, ele te vê», / eu disse! Então, na rocha em que te ocultavas, / possuiu-te; e disse, ao ter o que esperava: / «Tens, por nossa união, o poder sobre os gonzos; / é o prémio por deixares de ser virgem». / Disse e lhe deu u’a vara branca, que podia / das portas afastar os tristes crimes. (…)

Há ávidas aves (…)

Voam de noite, pegam crianças não cuidadas / e, tiradas dos cercos, dilaceram-nas; (…)

Chamam-se estriges: (…)

Chegaram ao quarto de Proca. Cinco dias / apenas tinha Proca – pasto de aves, / que o peito do menino avidamente lambem. / Porém, vage o infeliz e pede ajuda. / À voz do alimento acorre a ama assustada / e, rasgadas por unhas, acha as faces. (…)

Procura Crane e explica o havido. Esta responde: / «Não temas: viverá quem amamentas».

Perguntas por que são comidas nas Calendas / o farro quente, as favas e o toucinho? / Carna é u’a deusa antiga, e como antes, se nutre: (…)

Quem quer que em junho os coma juntos nas Calendas, / das vísceras evita adoecer.”[3]

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Bibliografia Geral:

Valverde, José Contreras et alii, Diccionario de la Religión Romana, Ed. Clásicas, Madrid, 1992.

Rodrigues, Nuno Simões, Mitos e Lendas da Roma Antiga, Livros e Livros, 2005, pp.243-244.

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[1]Sarcófago das crianças. [1] 170-180 d.C. 1,47 x 0,37 x 0,47m. (Viena, Kunsthistorisches Museum).

[2]Ovídio – Os Fastos, Livro VI– vv.101-104; 107-108; 119-120; 124-131; 135-136; 139; 143-148; 151-152; 169-171; 181-182.

[3] Ovídio, Os Fastos, tradução de Márcio Meirelles Gouvêa Júnior, Autêntica CLÁSSICA.